
Noite de chuvisco no bairro de Pompeia. Por um momento pensei que não deveria estar chovendo, e que Maio já era um menino irreverente para as bem conhecidas Águas de Março. Mas que adianta pensar entre o “ser” e o “dever ser” numa cidade como São Paulo que anda em descompasso como a numeração das ruas ou como os amores impossíveis. E menos ainda, num pais, onde o fato da novela das 20 hs começar às 21 hs, é apenas um detalhe insignificante da sua arritmia. Entre o “ser” e o “deveria”, São Paulo é um “É como puder”, um “É” incluso, falido. Um “É” tão furado que o melhor que gera é a licença poética das infiltrações. Daí, sejam bem-vindos o hibridismo, as migrações e miscigenações, que podem ser vistos na efervescência social das ruas ou no retrato de uma boa canção.
Gosto da musica, muito. Prefiro os shows nos teatros do que nos grandes estádios, mas os prefiro nos bares do que nos teatros. Para falar a verdade, que alias, é o lado preguiçoso da mentira, prefiro os cantos pequenos que permitem grande intimidade. Lugares onde se apaga a burrice da assimetria, onde o palco se alinha com o horizonte. Deve ser minha condição de imigrante que me leva a desestimar as fronteiras rígidas de todas as coisas e ficar a vontade na beira das linhas difusas mas não por difusas, menos beira.
Gosto do Zeca Baleiro, muito. Como boa parte dos descobrimentos, se produzem por acaso. Será?. O certo, com licença da tirania do erro, é que quando ganhei um disco cheio de mp3 do Zeca, eu nem sabia quem ele era. Devia?. Fazemos tantas coisas sem saber, que minha ignorância era apenas uma parte do meu “É” furado que, por sinal, não atrapalhava ninguém, a não ser eu. Toda parte é importante uma vez que a totalidade é sempre uma utopia, mas isso eu só consegui saber com o tempo: o maior do meus sábios invisíveis. Calma, o Zeca não é o “guru da galera” e não resolve a vida de ninguém, assim como “a solidão não cura com aspirina”. Entretanto, admito que a sua musica me acompanha desde muito antes de eu saber que faria 3000 km para fazer uma pós, e desde então tem se manifestado diante de mim, travestido de mil e uma formas.
Noite de chuvisco no bairro de Pompeia. São Paulo. Teatro do Sesc. Terça-feira, 8 de maio de 2007. 21 horas. Gravação do programa Bem Brasil. Tv Cultura. Fila C. Poltrona 17. Os dados é empirismo puro, é um vicio que eu tenho, é um ato reflexo (ou falido) de querer falar e demostrar a verdade como se alguém a pedisse; tal vez seja meu único vicio que não atente contra meu instinto de preservação. Eu sei que a verdade é um discurso e enquanto tal, vulnerável. Mas enfim.
Acho que fui assistir o show para descobrir o que tem na sua musica que fecha e abre. E só uma “parte” de mim compreende que posso descrever passagens da minha vida plagiando algumas letras do Zeca. De repente vi os limites do palco fundidos com a linha do horizonte e a um artista misturado com o povo, com o lirismo de quem sabe acariciar e compartilhar a diferença. Vi a Babilônia de olhares, apagando os limites da realidade com a cozinha da representação que depois a TV fará de nós. Um espaço moldado por um artista afiado, que ousa falar besteiras com a liberdade que só a inteligência pode permitir. Um espaço de musica híbrida, fruto de um artista hídrido que conseguiu fazer do Brasil uma sanfona, unindo a cultura do norte com o a do sul numa canção, com a naturalidade de quem sabe respirar poesia. Um prisma de artista. Um artista de síntese. Uma superação do Janus.
Epílogo:
Epílogo:
“Resolvi a vós dizer uma só verdade. Mas que verdade será esta?. Não gastemos tempo. A verdade que vós digo, é que no Maranhão não há verdade”.
Tâ bom. Mas naquelas que o Zeca Baleiro canta, eu acredito.
Um comentário:
Si él es quien puede prestarte palabras que te resuenan verdades, entonces, debe de ser un profeta.
Beijus!!!
(el moño, en reposo por ahora ;))
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